– O diálogo intergeracional é um eixo essencial para evitar que meninas, adolescentes e mulheres jovens herdem automaticamente o fardo do cuidado e para quebrar o ciclo de desigualdade que historicamente persiste.
12 de agosto de 2025. Antes de realizar o XVI Conferência Regional sobre Mulheres na América Latina e no Caribe, Na conferência que será realizada na Cidade do México de 12 a 15 de agosto, foi criado um espaço de diálogo e reflexão intergeracional onde Meninas Poderosas e Mulheres Empoderadas* compartilharam experiências e propostas sobre o trabalho de cuidado e seu impacto na igualdade de gênero. Este encontro visa amplificar as vozes de adolescentes e jovens sobre este tema, para que sejam consideradas nas discussões e nos acordos que serão adotados na Conferência.
Este fórum abordou as profundas desigualdades de gênero nas responsabilidades de cuidado e apresentou propostas concretas para avançar rumo à responsabilidade compartilhada e à equidade. O encontro virtual reuniu experiências e perspectivas de diversos países da América Latina e do Caribe, destacando um problema que afeta meninas, adolescentes e mulheres, e impacta diretamente suas oportunidades de desenvolvimento, saúde física e mental, e participação social e econômica.
Os participantes concordaram que, na América Central, e particularmente em áreas rurais, meninas e adolescentes assumem responsabilidades de cuidado inadequadas para sua idade. Isso inclui cuidar de irmãos mais novos, acompanhar pessoas doentes ou idosas e realizar tarefas domésticas que deveriam ser compartilhadas por todos os membros da família.
Essa sobrecarga de trabalho tem consequências profundas: muitas meninas são privadas da frequência escolar devido a essas responsabilidades, enquanto os meninos têm prioridade na educação por razões econômicas e devido à persistência de estereótipos de gênero que atribuem às mulheres o papel principal de cuidadoras.
Desde a infância, esses papéis são reforçados, por exemplo, por meio da distribuição de diferentes brinquedos e atividades: as meninas recebem cozinhas de brinquedo e bonecas, enquanto os meninos recebem ferramentas e carrinhos. Essa prática não só normaliza a divisão desigual do trabalho, como também molda as aspirações e escolhas de carreira futuras, reduzindo a representação feminina em áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) e concentrando sua participação em ocupações tradicionalmente associadas ao cuidado, como o magistério ou a enfermagem.
Ficou evidente que a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidado limita severamente o tempo que meninas e adolescentes têm para estudar, brincar ou participar de atividades recreativas. Exemplos específicos mostram que, na Guatemala, muitas meninas enfrentam tarefas domésticas além dos estudos, o que leva à exaustão e ao baixo rendimento acadêmico. Em El Salvador, algumas meninas precisam abandonar a escola para levar comida para o campo ou realizar tarefas domésticas, interrompendo sua educação — uma tarefa não atribuída aos meninos.
Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 76,21% do trabalho não remunerado é realizado por mulheres, mais que o dobro do tempo que os homens dedicam a essa atividade. Essa realidade não só restringe as oportunidades de desenvolvimento de meninas e adolescentes, como também impacta sua saúde mental, causando exaustão, ansiedade e depressão, além de limitar seus sonhos e planos de vida.
O diálogo destacou que os estereótipos de gênero influenciam decisivamente as escolhas de carreira e as oportunidades de emprego. Em ambientes acadêmicos tradicionalmente dominados por homens, como a engenharia, as mulheres enfrentam comentários e atitudes desencorajadoras que reforçam sua exclusão.
Desde a infância, as expectativas e mensagens da sociedade moldam as aspirações: enquanto as meninas são preparadas para papéis de cuidadoras, os meninos são incentivados a seguir carreiras técnicas ou científicas. Esse viés perpetua a segregação ocupacional e contribui para a desigualdade salarial e previdenciária, visto que as ocupações de cuidado geralmente são menos remuneradas e menos valorizadas em termos econômicos e sociais.
Um tema central da conversa foi a necessidade de estabelecer sistemas de saúde abrangentes que redistribuam equitativamente as responsabilidades entre homens e mulheres. Reconheceu-se que, apesar dos progressos em alguns países, ainda há muito a ser feito para garantir o acesso universal, inclusivo e sustentável aos serviços de saúde, e que isso só será possível se meninas, adolescentes e mulheres jovens forem incluídas nesses sistemas a partir de hoje.
O caso do México ilustra o peso econômico desse setor: o trabalho de cuidado não remunerado representa 26,1% do PIB, superando setores-chave como o industrial e o turístico. Estudos indicam que investir em sistemas de cuidado poderia aumentar a participação feminina na força de trabalho em 12,1%. Também foi mencionado que, na Argentina, os homens têm direito a apenas dois dias de licença-paternidade, o que dificulta a responsabilidade compartilhada desde a primeira infância.
Foi enfatizado que incluir meninas e adolescentes nas decisões sobre cuidados é crucial, visto que muitas vivenciam essa realidade em primeira mão e oferecem perspectivas valiosas para o desenvolvimento de políticas e programas. Respeitar o direito delas à infância significa evitar que sejam sobrecarregadas com a responsabilidade de cuidar de outros membros da família, o que pode limitar seu desenvolvimento pessoal, educacional e social.
Da mesma forma, foi enfatizada a necessidade de criar espaços seguros e acessíveis onde meninas e adolescentes possam compartilhar suas experiências e participar ativamente das decisões que afetam suas vidas, tanto no ambiente familiar quanto na escola e na comunidade.
As propostas resultantes dessas reflexões destacaram medidas para os Estados, as comunidades e as famílias:
- Promover a alfabetização digitalFacilitar o acesso de mulheres e meninas às tecnologias, especialmente em comunidades rurais, para ampliar suas oportunidades de emprego, educação e redes de apoio.
- Espaços de cuidado em empresas e escolas: Implementar creches e centros de cuidados infantis que facilitem o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, educação e responsabilidades familiares. Sugere-se considerar experiências anteriores, como... Creche Lullaby, Implementado recentemente em municípios da Colômbia, este programa oferece atendimento integral a crianças por meio de creches noturnas, permitindo que mães e pais que estudam ou trabalham à noite se dediquem a outras atividades de desenvolvimento pessoal, educacional ou profissional.
- Campanhas educativas desde a infânciaPromover a distribuição equitativa das tarefas de cuidado entre homens e mulheres, combatendo estereótipos e práticas culturais que perpetuam a desigualdade.
- Apoio psicológico e recreativoDesenvolver programas de bem-estar emocional e atividades recreativas para aqueles que realizam trabalhos de cuidado, ajudando a prevenir a síndrome de burnout e a fortalecer sua qualidade de vida.
- Reconhecimento econômico do cuidadoGarantir que os cuidadores recebam uma remuneração justa e tenham acesso aos direitos trabalhistas e de seguridade social.
- Promover espaços para uma parentalidade positiva em grupo: Desenvolver programas comunitários onde mães, pais e cuidadores possam aprender estratégias parentais positivas, receber apoio emocional e compartilhar experiências em um ambiente de apoio mútuo, fortalecendo assim o tecido comunitário e o bem-estar familiar.
No âmbito familiar e comunitário, a proposta era promover uma distribuição equitativa das tarefas domésticas desde a infância, criar centros de acolhimento comunitários, promover oficinas escolares, fomentar círculos de apoio emocional e recuperar conhecimentos ancestrais que fortaleçam a rede social de cuidados.
Esta conversa reafirma que a construção de um sistema de cuidados equitativo não é apenas uma questão de justiça social e de gênero, mas também um investimento estratégico para o desenvolvimento sustentável da região. A transformação exige vontade política, mudanças culturais e a implementação de políticas públicas que reconheçam, redistribuam e remunerem de forma justa o trabalho de cuidado, garantindo assim um futuro com igualdade de oportunidades para todos. Ressalta-se também a importância do diálogo intergeracional e de garantir que meninas, adolescentes e mulheres jovens participem ativamente dessas conversas, pois sua inclusão é essencial para evitar que herdem automaticamente o fardo do cuidado e para romper o ciclo de desigualdade que historicamente persiste.
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*Mulheres integrantes das Organizações Promotoras de Meninas Poderosas
Contato de imprensa: Verónica Morales comunicacion@tejiendoredesinfancia.org


